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| | Poesia (Ser poeta é ser mais alto) | |
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| Autor | Mensagem |
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Li Admin

Número de Mensagens: 3601 Localização: Margem Sul do Tejo Data de inscrição: 30/12/2006
 | Assunto: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 20 Jun 2007, 02:56 | |
| Numa cultura em que os livros deixam de ter o papel importante que desde há muito sempre tiveram, a Poesia é talvez o maior alvo para a indiferença.
Porquê? Sinceramente não é bem isso que interessa neste tópico. O que interessa são aqueles que nos deixaram, deixam e deixarão sempre com prosas escritas, e pensamentos em verso. E é neste tópico que vos peço para deixarem os poemas e poetas que mais vos tocam, sejam eles de que nacionalidade forem (desde que os respectivos estejam traduzidos em português - exclusivamente).
Última edição por em Qua 20 Jun 2007, 03:03, editado 1 vezes |
|  | | Li Admin

Número de Mensagens: 3601 Localização: Margem Sul do Tejo Data de inscrição: 30/12/2006
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 20 Jun 2007, 03:01 | |
| Lembrei-me de um poeta talvez por vós desconhecido, a quem sempre tive respeito. Tem por nome Henrique Segurado.
Foi com as obras "Bichos" e "Ressentimentos de um Ocidental" que Henrique Segurado mais se destacou, uma vez que neles expressou a sua visão sobre o regime ditatorial que Portugal viveu até 74, incluindo vários aspectos da nossa sociedade de então. Para os interessados, até hoje, Henrique Segurado envia colaborações para jornais como "O Século", "Diário de Lisboa", "República" e "Letras e Artes". Foi ainda incluído na Antologia da Poesia Portuguesa do Após-Guerra.
Deixo um dos poemas deste senhor, do qual gosto bastante:
A Vida e Morte dos Bichos
A nossa voz não se eleva, Vem no eco tão sumida... Parece um vento de seca, Deixando a terra dorida.
Na garganta temos curtas Que tu, silêncio, nos lavras, E a falta, cruel, de chuvas Vai-nos secando as palavras.
Sitiados pela sede Até os sonhos secamos. O nosso corpo nem metade A sombra que projectamos!
Ficamos crucificados Nos ponteiros do momento, Como relógios parados Para enganarem o tempo.
A vida quase sem querer Pôs os dedos nos gatilhos... Só a morte nos quer Como só se quer aos filhos! |
|  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1139 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 20 Jun 2007, 03:11 | |
| Excelente poema esse, desconhecia...mas gostei da sua pontuação que faz com que o poema seja lido de forma lenta, profunda e sentida!!!
Deixo aqui um poema que me toca profundamente, do senhor Al Berto. Fez há poucos dias atrás 10 anos da sua morte!
Recado
ouve-me que o dia te seja limpo e a cada esquina de luz possas recolher alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar ou reconhecer - vai por esse campo de crateras extintas - vai por essa porta de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te e as loucas aveias que o ácido enferrujou erguerem-se na vertigem do voo - deixa que o outono traga os pássaros e as abelhas para pernoitarem na doçura do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo e para lá da pele constrói o arco de sal a morada eterna - o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes de desejos em poeira - não esqueças o ouro o marfim - os sessenta comprimidos letais ao pequeno-almoço |
|  | | aetheria Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 893 Localização: Braga Data de inscrição: 15/01/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 20 Jun 2007, 14:29 | |
| Ui!!! Foste abrir a caixa de pandora, minha amiga!!! Tenho e sempre tive paixão pela poesia!... é a arte maior da literatura, na sua capacidade de dizer tanto em tão pouco e de sugerir ainda mais do que aquilo que diz! São tantas e tantas as refrências, as paixões!  .... aliás, vou-as semeando sempre por aí, já nem sei o que já coloquei. Assim de repente, Torga. IMENSO!!!! Dies Irae Apetece cantar, mas ninguém canta. Apetece chorar, mas ninguém chora. Um fantasma levanta A mão do medo sobre a nossa hora. Apetece gritar, mas ninguém grita. Apetece fugir, mas ninguém foge. Um fantasma limita Todo o futuro a este dia de hoje. Apetece morrer, mas ninguém morre. Apetece matar, mas ninguém mata. Um fantasma percorre Os motins onde a alma se arrebata. Oh! maldição do tempo em que vivemos, Sepultura de grades cinzeladas, Que deixam ver a vida que não temos E as angústias paradas! ABSOLUTAMENTE SUPERIOR, o "Desfecho"Não tenho mais palavras. Gastei-as a negar-te... (Só a negar-te eu pude combater O terror de te ver Em toda a parte.) Fosse qual fosse o chão da caminhada, Era certa a meu lado A divina presença impertinente Do teu vulto calado E paciente... E lutei, como luta um solitário Quando alguém lhe perturba a solidão. Fechado num ouriço de recusas, Soltei a voz, arma que tu não usas, Sempre silencioso na agressão. Mas o tempo moeu na sua mó O joio amargo do que te dizia... Agora somos dois obstinados, mudos e malogrados, Que apenas vão a par na teimosia. Voltarei.  |
|  | | Li Admin

Número de Mensagens: 3601 Localização: Margem Sul do Tejo Data de inscrição: 30/12/2006
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 20 Jun 2007, 14:32 | |
| TORGA é um dos GRANDES Volta, sim  |
|  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1139 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sex 22 Jun 2007, 01:53 | |
| Seguindo a onda do senhor Torga e porque este ano seria o centenário do mesmo, junto aqui à excelente escolha da excelentíssima Aetheria, um poema que me toca muito! Súplica Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.  |
|  | | Laepo Afilhado/a

Número de Mensagens: 533 Idade: 21 Data de inscrição: 14/03/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sex 22 Jun 2007, 03:34 | |
| Adoro Torga... e esse poema é dos meus favoritos Noghtspirit O que há em mim é sobretudo cansaço - Álvaro de campos O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A sutileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimno, íssimo, íssimo, Cansaço... adoro este poema.. a segunda estrofe então... 
Última edição por em Ter 12 Fev 2008, 18:32, editado 1 vezes |
|  | | aetheria Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 893 Localização: Braga Data de inscrição: 15/01/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sex 22 Jun 2007, 12:22 | |
|  Nem sequer vou entrar ainda em Pessoa... Ainda Torga, porque como o Nighspirit tão bem lembrou é o seu centenário, e por que é um GIGANTE da literatura MUNDIAL. Ainda na linha do seu conflito com o divino, um dos seus temas de eleição e que eu tanto parecio... Livro de Horas Aqui diante de mim, Eu, pecador, me confesso De ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau Que vão ao leme da nau Nesta deriva em que vou. Me confesso Possesso Das virtudes teologais, Que são três, E dos pecados mortais, Que são sete, Quando a terra não repete Que são mais. Me confesso O dono das minhas horas O dos facadas cegas e raivosas, E o das ternuras lúcidas e mansas. E de ser de qualquer modo Andanças Do mesmo todo. Me confesso de ser charco E luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco Que atira setas acima E abaixo da minha altura. Me confesso de ser tudo Que possa nascer em mim. De ter raízes no chão Desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim. Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído Do tal céu que Deus governa; De ser um monstro saído Do buraco mais fundo da caverna. Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim Para dizer que sou eu Aqui, diante de mim! É um gigante, meus amigos, um gigante! |
|  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1139 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sex 22 Jun 2007, 18:11 | |
| Txiii o grandioso "Livro de Horas"...excelente Aetheria, excelente!! Um gigante sem dúvida!! |
|  | | Brisa Amigo/a da Casa

Número de Mensagens: 146 Idade: 31 Localização: Alcântara Data de inscrição: 27/03/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sex 29 Jun 2007, 17:23 | |
| | Nightspirit escreveu: | Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.
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Que poema! Muito boa escolha nightspirit e pelo "tom", diria que estás apaixonadito (estou a brincar, não leves a mal )
Seguindo-vos os passos, deixo outro de Miguel Torga:
«SEGREDO»
Sei um ninho. E o ninho tem um ovo. E o ovo, redondinho, Tem lá dentro um passarinho Novo.
Mas escusam de me atentar: Nem o tiro, nem o ensino. Quero ser um bom menino E guardar Este segredo comigo. E ter depois um amigo Que faça o pino A voar...
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|  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1139 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sex 29 Jun 2007, 19:00 | |
| É lindo não é Brisa? Tem um "tom" interessante tem...  |
|  | | Laepo Afilhado/a

Número de Mensagens: 533 Idade: 21 Data de inscrição: 14/03/2007
 | |  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1139 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Seg 30 Jul 2007, 02:16 | |
| Descida aos Infernos
"Desço aos infernos, a descer em mim. Mas agora o meu canto não perfura O coração da morte, À procura Da sombra Dum amor perdido. Agora É o repetido Aceno Do próprio abismo Que me seduz. É ele, embriaguez nocturna da vontade, Que me obriga a sair da claridade E a caminhar sem luz.
Ergo a voz e mergulho Dentro do poço, Neste moço Heroísmo Dos poetas, Que enfrentam confiantes O interdito Guardado por gigantes, Cães vigilantes Aos portões do mito.
E entro finalmente No reino tenebroso Das minhas trevas. Quebra-se a lira, Cessa a melodia; E um medo triste, de vergonha e assombro, Gela-me o sangue, rio sem nascente, Onde o céu, lá do alto, se reflecte, Inútil como a paz que me promete."
(Miguel Torga) |
|  | | Jedi Mind Tricks Moderador

Número de Mensagens: 1706 Idade: 24 Localização: Lisboa, Portugal Data de inscrição: 01/01/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Seg 30 Jul 2007, 12:02 | |
| Só um pequeno comentário em relação ao tema que levantaste no inicio... Hoje em dia até a própria musica, que antes era baseada em poesia, deixou de lhe dar atenção. |
|  | | aetheria Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 893 Localização: Braga Data de inscrição: 15/01/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Seg 30 Jul 2007, 12:11 | |
| | Nightspirit escreveu: | Descida aos Infernos
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Quando voltarão, assim, os poetas GRANDES?!?! Impressiona até doer cada verso rasgado do Torga... sinto-me tão depressa espezinhada como lida por dentro!  _________________ "A partir de um determinado ponto já não há retorno. É esse ponto que se tem que alcançar." Kafka "I am the blue-lidded daughter of Sunset; I am the naked brilliance of the voluptuous night-sky. " Crowley
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