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| | Poesia (Ser poeta é ser mais alto) | |
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| Autor | Mensagem |
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Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1142 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Dom 12 Ago 2007, 19:07 | |
| E porque hoje é um dia especial...
A Morte
E o Poeta morreu. A sombra do cipreste pôde enfim Abraçar o cipreste. O torrão Caiu desfeito ao chão Da aventura celeste.
Nenhum tormento mais, nenhuma imagem (No caixão, ninguém pode Fantasiar). Pronto para a viagem De acabar.
Só no ouvido dos versos, Onde a seiva não corre, Um rima perdura A dizer com brandura Que um Poeta não morre.
Miguel Torga |
|  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1142 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Sab 01 Set 2007, 05:52 | |
| "Não durmo, nem espero dormir. Nem na morte espero dormir. Espera-me uma insônia da largura dos astros, E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, Não posso escrever quando acordo de noite, Não posso pensar quando acordo de noite — Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, E o meu sentimento é um pensamento vazio. Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos — Versos a dizer que não tenho nada que dizer, Versos a teimar em dizer isso, Versos, versos, versos, versos, versos... Tantos versos... E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. Sou uma sensação sem pessoa correspondente, Uma abstração de autoconsciência sem de quê, Salvo o necessário para sentir consciência, Salvo — sei lá salvo o quê...
Não durmo. Não durmo. Não durmo. Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto... Vem... Vem, inutilmente, Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. O meu cansaço entra pelo colchão dentro. Doem-me as costas de não estar deitado de lado. Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei. Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, Não tenho energia para nada, para mais nada... Só para estes versos, escritos no dia seguinte. Sim, escritos no dia seguinte. Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. Paz em toda a Natureza. A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. Exatamente. A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. Costuma dizer-se isto. A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. Exatamente. Mas não durmo."
(Álvaro de Campos)
Quero dormir...! |
|  | | Nightspirit Mestre Luso/a

Número de Mensagens: 1142 Localização: Braga Data de inscrição: 05/02/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Seg 11 Fev 2008, 02:38 | |
| A Vida Ao Rubro
As mães fazem-vos a sangrar E seguram-vos por toda a vida Por uma fita de carne viva Somos criados em jaulas Vivemos dos pedaços mastigados Dos seios arrancados com sangue Que penduramos à beira dos berços Temos sangue no corpo todo E como não gostamos de vê-lo Fazemos verter o dos outros Um dia, não haverá mais Seremos livres.
Boris Vian |
|  | | maresque Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 886 Localização: Portalegre Data de inscrição: 09/03/2008
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Seg 10 Mar 2008, 23:38 | |
| aqui está um poema de e. e. cummings que gosto muito... talvez pela serenidade (verdadeira? fictícia?) que transmite:
pode nem sempre ser assim; e eu digo que se os teus lábios, que amei, tocarem os de outro, e os teus dedos fortes e meigos cingirem o seu coração, como o meu em tempos não muito distantes; se na face de outro os teus suaves cabelos repousarem nesse silêncio que eu sei, ou nessas palavras sublimes e estremecidas que, dizendo demasiado ficam desamparadamente diante do espírito vozeando;
se assim for, eu digo se assim for - tu do meu coração, manda-me um recado; que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos, dizendo, Aceita toda a felicidade de mim. Então hei-de voltar a cara, e ouvir um pássaro cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: Manhã de promessas vãs.... Dom 16 Mar 2008, 20:06 | |
| Em baixo, um poema meu. Feito hoje....
:-)
A manhã nasceu parda, Lida de trás para a frente, Fi-la salmo de profeta,....
Bocejou promessas finitas, Coisas banhadas em amargor, De uma dor de ir à loucura,...
Feito confessor de renascimento, O pastor das almas milenares, Viu a manhã atacada,...
Possuída por pés de barro, Pavor da desproporcionalidade, Do muito, à manhã resta o pouco,...
Vai morrer em cinzentos, Manhã de promessas vãs, Vendeu a alma ao incerto,.... |
|  | | Meretseguer Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 909 Data de inscrição: 23/11/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 23 Abr 2008, 18:30 | |
| Alcoólicas de Hilda Hilst
É crua a vida. Alça de tripa e metal. Nela despenco: pedra mórula ferida. É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. Como-a no livor da língua Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me No estreito-pouco Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. E perambulamos de coturno pela rua Rubras, góticas, altas de corpo e copos. A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas - I)
* * *
Também são cruas e duras as palavras e as caras Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte É um rei que nos visita e nos cobre de mirra. Sussurras: ah, a vida é líquida.
(Alcoólicas - II)
* * *
E bebendo, Vida, recusamos o sólido O nodoso, a friez-armadilha De algum rosto sóbrio, certa voz Que se amplia, certo olhar que condena O nosso olhar gasoso: então, bebendo? E respondemos lassas lérias letícias O lusco das lagartixas, o lustrino Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho. Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me Na noite navegada, e rio, rio, e remendo Meu casaco rosso tecido de açucena. Se dedutiva e líquida, a Vida é plena. (Alcoólicas - IV)
* * * Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado Salpicado de negro, de doçuras e iras. Te amo, Líquida, descendo escorrida Pela víscera, e assim esquecendo Fomes País O riso solto A dentadura etérea Bola Miséria. Bebendo, Vida, invento casa, comida E um Mais que se agiganta, um Mais Conquistando um fulcro potente na garganta Um látego, uma chama, um canto. Amo-me. Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos Quando não sou líquida.
(Alcoólicas - V |
|  | | Meretseguer Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 909 Data de inscrição: 23/11/2007
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qua 23 Abr 2008, 18:31 | |
| E Então Que Quereis?... Fiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes. E logo de cada fronteira distante subiu um cheiro de pólvora perseguindo-me até em casa. Nestes últimos vinte anos nada de novo há no rugir das tempestades. Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.
Maiakovski (1927)
(a suspirar por Maiakovski...a suspirar por Pound...) |
|  | | maresque Super-Lusitano/a

Número de Mensagens: 886 Localização: Portalegre Data de inscrição: 09/03/2008
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Qui 24 Abr 2008, 01:33 | |
| As manobras do desejo, sei que esqueço quem com o lume trouxe a sua própria água e me levou a sítios que fingi desconhecer. Forçados ao castigo esses braços tinham que lançar-se à volta dos meus, agora pouco se parecem com as imagens que os descreviam. Por um segundo breve tornou-se frágil a mentira, chegasse uma noite uma rápida noite e tudo seria mais longe da dor. Quiseste, porém, tornar evidente a segurança com a esperança de ganhar o tempo. E só adiaste a definitiva perda, a vida que falta para viver
Helder Moura Pereira - "Os Tranquilos Sobressaltos" (Gota de Água, 1982) |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: Avatar Sex 06 Jun 2008, 12:50 | |
| reages, tens a presença envenenada, porque és afago em mármore de taberna, avental assoberdado de nódas, pano de assoar mágoas incontidas,...
Spectrum a chiar, tardes à espera,...
com cão eremita a carpir destinos, e a emagrecer pelo côto cortado,...
Com tempos que já foram de verbo, e sóis aptos a morrer, capitéis, És à sombra, com frio, timidez desembargada, complexo avatar de amor,...
saio de ti afunilado, com a mentira dissecada, o arroto de basta, que ecoa, em espírito que trancaste, com esporas de cavalo cansado,...
Do que és em semi-breu, arrependimento, conciso sentido de espera, Antevejo um rio, de ti para a esquina, o reduzido, de um caminho consentido, se pensas que matar o que resta, te vai trazer a gnose.... |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: Bip, bip Dom 08 Jun 2008, 14:22 | |
| sim estou para o que fui nem menos só mais ansiolíticos e pontapés em pedras e artérias que pautam colesterol tintol embrulhado no formol para que o que sou hoje nem menos nem mais seja o que nunca serei de manhã amanhã morri feliz? pois achei que não.... |
|  | | Li Admin

Número de Mensagens: 3620 Localização: Margem Sul do Tejo Data de inscrição: 30/12/2006
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Dom 08 Jun 2008, 17:54 | |
| | lloyd_christmas escreveu: | sim estou para o que fui nem menos só mais ansiolíticos e pontapés em pedras e artérias que pautam colesterol tintol embrulhado no formol para que o que sou hoje nem menos nem mais seja o que nunca serei de manhã amanhã morri feliz? pois achei que não.... |
Desculpa criticar-te, mas, começa bem, e quando chega a "colesterol" perde o encanto. Diria que isto é talvez um momento teu em que a caneta começou a escrever, e nem tanto a Alma - não que tenha sido o caso, mas como leitora diria isso, pois é assim que me vejo aqui; uma caneta, |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto) Dom 08 Jun 2008, 18:27 | |
| | Miss*Li escreveu: | | lloyd_christmas escreveu: | sim estou para o que fui nem menos só mais ansiolíticos e pontapés em pedras e artérias que pautam colesterol tintol embrulhado no formol para que o que sou hoje nem menos nem mais seja o que nunca serei de manhã amanhã morri feliz? pois achei que não.... |
Desculpa criticar-te, mas, começa bem, e quando chega a "colesterol" perde o encanto. Diria que isto é talvez um momento teu em que a caneta começou a escrever, e nem tanto a Alma - não que tenha sido o caso, mas como leitora diria isso, pois é assim que me vejo aqui; uma caneta, |
Obrigado pela opinião.
Todas são válidas, e com todas aprendemos..
:-) |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: 'queriamasnãoconsigo' Ter 17 Jun 2008, 19:22 | |
| Ninguém nesta sala está interessado em profissões descarnadas...
Sonhos militantes, e realidades alternativas a destilar ao sol serão o que nós queremos, mas aos pedacinhos...
Aguardar por mil e dois cenários de autofagia, abrigados no chapéu de chuva da mãe 'queriamasnãoconsigo',
desfiar porções de bacalhaus homens de bigodes finos, e sem espinha,....
voltar e sair, sem desmontar a casinha de bonecas em que se vive,....
Ninguém nesta sala, pede por profissões descarnadas,....
O que se pede, são vidas, desbloqueadas de senso..... |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: Ata turk Sab 21 Jun 2008, 14:56 | |
| flor de bloco cimento que aspira a secura da alma-terra, a lágrima do defecado interno que chia,
que urgia
de outros tempos, a florir promessas vãs, enquanto o vento assassina, alívios em que desatina a fome com a nua condição, de amar perto do esmaiado coração |
|  | | lloyd_christmas Visitante
Número de Mensagens: 53 Idade: 34 Data de inscrição: 15/02/2008
 | Assunto: Mónico Leu o Whisky Sex 27 Jun 2008, 11:00 | |
| Melena cor de chumbo, pôpa, mulher, pôpa,... e um pinguinho de condicionante,....
Saia com baínha, que íman com ladaínha!!! Nódoa, mulher, nódoa,
Transparente, em azul,... Nódoa que joga na névoa, com rimas de mau prestador,... Serve-o, mulher, serve-o,...
Conselhos: Pedra-pomes, Pensos, Gravilha,....
Joelho sofre, carteira ganha, honra?....
Como tremoços ao pequeno-almoço... Nunca palmadinhas nas costas..... |
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