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Poesia (Ser poeta é ser mais alto)

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Nightspirit
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Dom 12 Ago 2007, 19:07

E porque hoje é um dia especial...


A Morte

E o Poeta morreu.
A sombra do cipreste pôde enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito ao chão
Da aventura celeste.

Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão, ninguém pode
Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.

Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Um rima perdura
A dizer com brandura
Que um Poeta não morre.


Miguel Torga
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"...The total absence of hope, which has nothing to do with despair, a continual refusal, which must not be confused with renouncement - and a conscious dissatisfaction." (Camus)

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Nightspirit
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Sab 01 Set 2007, 05:52

"Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo."

(Álvaro de Campos)

Quero dormir...!
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Seg 11 Fev 2008, 02:38

A Vida Ao Rubro


As mães fazem-vos a sangrar
E seguram-vos por toda a vida
Por uma fita de carne viva
Somos criados em jaulas
Vivemos dos pedaços mastigados
Dos seios arrancados com sangue
Que penduramos à beira dos berços
Temos sangue no corpo todo
E como não gostamos de vê-lo
Fazemos verter o dos outros
Um dia, não haverá mais
Seremos livres.


Boris Vian
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Seg 10 Mar 2008, 23:38

aqui está um poema de e. e. cummings que gosto muito... talvez pela serenidade (verdadeira? fictícia?) que transmite:

pode nem sempre ser assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus dedos fortes e meigos cingirem
o seu coração, como o meu em tempos não muito distantes;
se na face de outro os teus suaves cabelos repousarem
nesse silêncio que eu sei, ou nessas
palavras sublimes e estremecidas que, dizendo demasiado
ficam desamparadamente diante do espírito vozeando;

se assim for, eu digo se assim for -
tu do meu coração, manda-me um recado;
que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.
Então hei-de voltar a cara, e ouvir um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.
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lloyd_christmas
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MensagemAssunto: Manhã de promessas vãs....   Dom 16 Mar 2008, 20:06

Em baixo, um poema meu. Feito hoje....

:-)

A manhã nasceu parda,
Lida de trás para a frente,
Fi-la salmo de profeta,....

Bocejou promessas finitas,
Coisas banhadas em amargor,
De uma dor de ir à loucura,...

Feito confessor de renascimento,
O pastor das almas milenares,
Viu a manhã atacada,...

Possuída por pés de barro,
Pavor da desproporcionalidade,
Do muito, à manhã resta o pouco,...

Vai morrer em cinzentos,
Manhã de promessas vãs,
Vendeu a alma ao incerto,....
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Registrado dia : 23 Nov 2007
Mensagens : 233

MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Qua 23 Abr 2008, 18:30

Alcoólicas
de Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

(Alcoólicas - II)

* * *


E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
(Alcoólicas - IV)

* * *
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

(Alcoólicas - V
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Qua 23 Abr 2008, 18:31

E Então Que Quereis?...
Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.


Maiakovski
(1927)


(a suspirar por Maiakovski...a suspirar por Pound...)
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maresque
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Qui 24 Abr 2008, 01:33

As manobras do desejo, sei que esqueço
quem com o lume trouxe a sua própria
água e me levou a sítios que fingi
desconhecer. Forçados ao castigo esses
braços tinham que lançar-se à volta
dos meus, agora pouco se parecem com as
imagens que os descreviam. Por um
segundo breve tornou-se frágil
a mentira, chegasse uma noite uma
rápida noite e tudo seria mais longe
da dor. Quiseste, porém, tornar
evidente a segurança com a esperança
de ganhar o tempo. E só adiaste
a definitiva perda, a vida que falta
para viver

Helder Moura Pereira - "Os Tranquilos Sobressaltos" (Gota de Água, 1982)
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lloyd_christmas
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MensagemAssunto: Avatar   Sex 06 Jun 2008, 12:50

reages, tens a presença envenenada,
porque és afago em mármore de taberna,
avental assoberdado de nódas,
pano de assoar mágoas incontidas,...

Spectrum a chiar,
tardes à espera,...

com cão eremita a carpir destinos,
e a emagrecer pelo côto cortado,...

Com tempos que já foram de verbo,
e sóis aptos a morrer,
capitéis,
És à sombra, com frio,
timidez desembargada,
complexo avatar de amor,...

saio de ti afunilado,
com a mentira dissecada,
o arroto de basta,
que ecoa,
em espírito que trancaste,
com esporas de cavalo cansado,...

Do que és em semi-breu,
arrependimento, conciso sentido
de espera,
Antevejo um rio,
de ti para a esquina,
o reduzido,
de um caminho consentido,
se pensas que matar
o que resta,
te vai trazer
a gnose....
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lloyd_christmas
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MensagemAssunto: Bip, bip   Dom 08 Jun 2008, 14:22

sim
estou
para o que fui
nem menos
só mais ansiolíticos
e pontapés em pedras
e artérias que pautam
colesterol
tintol
embrulhado
no formol
para que o que
sou hoje
nem menos
nem mais
seja o que
nunca serei
de manhã
amanhã
morri
feliz?
pois
achei que não....
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Li
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Mensagens : 2864
Localização : MSHC

MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Dom 08 Jun 2008, 17:54

lloyd_christmas escreveu:
sim
estou
para o que fui
nem menos
só mais ansiolíticos
e pontapés em pedras
e artérias que pautam
colesterol
tintol
embrulhado
no formol
para que o que
sou hoje
nem menos
nem mais
seja o que
nunca serei
de manhã
amanhã
morri
feliz?
pois
achei que não....


Desculpa criticar-te, mas, começa bem, e quando chega a "colesterol" perde o encanto.
Diria que isto é talvez um momento teu em que a caneta começou a escrever, e nem tanto a Alma - não que tenha sido o caso, mas como leitora diria isso, pois é assim que me vejo aqui; uma caneta,
_________________
«Acho que a nivel cultural se não estamos na cauda da UE, estamos para aí no coccix.»

*péum*
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lloyd_christmas
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MensagemAssunto: Re: Poesia (Ser poeta é ser mais alto)   Dom 08 Jun 2008, 18:27

Miss*Li escreveu:
lloyd_christmas escreveu:
sim
estou
para o que fui
nem menos
só mais ansiolíticos
e pontapés em pedras
e artérias que pautam
colesterol
tintol
embrulhado
no formol
para que o que
sou hoje
nem menos
nem mais
seja o que
nunca serei
de manhã
amanhã
morri
feliz?
pois
achei que não....


Desculpa criticar-te, mas, começa bem, e quando chega a "colesterol" perde o encanto.
Diria que isto é talvez um momento teu em que a caneta começou a escrever, e nem tanto a Alma - não que tenha sido o caso, mas como leitora diria isso, pois é assim que me vejo aqui; uma caneta,


Obrigado pela opinião.

Todas são válidas, e com todas aprendemos..

:-)
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MensagemAssunto: 'queriamasnãoconsigo'   Ter 17 Jun 2008, 19:22

Ninguém
nesta sala
está interessado em
profissões descarnadas...

Sonhos militantes,
e realidades alternativas
a destilar ao sol
serão o que nós queremos,
mas aos pedacinhos...

Aguardar por mil
e dois cenários de autofagia,
abrigados no chapéu de
chuva da mãe 'queriamasnãoconsigo',

desfiar porções de bacalhaus
homens de bigodes finos,
e sem espinha,....

voltar e sair,
sem desmontar a casinha
de bonecas em que se vive,....

Ninguém
nesta sala,
pede por profissões
descarnadas,....

O que se pede,
são vidas,
desbloqueadas de senso.....
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MensagemAssunto: Ata turk   Sab 21 Jun 2008, 14:56

flor de bloco
cimento que aspira
a secura da alma-terra,
a lágrima do defecado
interno que chia,

que urgia

de outros tempos,
a florir promessas vãs,
enquanto o vento assassina,
alívios em que desatina
a fome
com a nua condição,
de amar perto
do esmaiado coração
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MensagemAssunto: Mónico Leu o Whisky   Sex 27 Jun 2008, 11:00

Melena cor de chumbo,
pôpa, mulher, pôpa,...
e um pinguinho de condicionante,....

Saia com baínha,
que íman com ladaínha!!!
Nódoa, mulher, nódoa,

Transparente, em azul,...
Nódoa que joga na névoa,
com rimas de mau prestador,...
Serve-o, mulher, serve-o,...

Conselhos:
Pedra-pomes,
Pensos,
Gravilha,....

Joelho sofre,
carteira ganha,
honra?....

Como tremoços ao pequeno-almoço...
Nunca palmadinhas nas costas.....
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